sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Kampuny do Comandante Manel escreveu isto há 3 anos

“ESTE CONGRESSO CUSTOU OS OLHOS DO MEU PAI”!
Num estado-misto de alegria e tristeza, eis-me aqui desafogando convosco… Saí de Bissau a um ano e tal, e o meu pai ainda via, mesmo que nublado, peripécias da diabete de que padece há mais de 20 anos! Na noite em que me despedi dele, juntamente com as minhas manas Ninfa e Dulce, só pude-lhe dizer: Deus fika ku bô, papa. Kuida bem di bô, n’amau tchiu. E ele, emocionado retorquiu: Bai tambi ku Deus, bu kuida. O amar-me muito, ele não diz, pois fica para quando ele me canta: “Sali mana, mana badjuda”!
Ao longo de um ano e tal, rejeita completamente sair de Bissau rumo ao tratamento, com cirurgia marcada e todas as providências tomadas, sem custos para ele, graças a uns amigos médicos que sempre o estimaram. Ele foi adiando, adiando, sob a justificação da responsabilidade de organizar o congresso, sendo que a própria divergência interna do partido, alongava cada vez mais esse evento. Até que hoje, só hoje, soube que ele já não vê quase nada. Ainda perguntei a minha irmã, mas ele não vê nada? E sentindo a minha inquietação, disse: ver ele vê, mas quase nada... O silêncio foi ensurdecedor, mas eu entendi. 
Perdeu a visão, mas concretizou-se o congresso, com ajuda de Deus. Eu que sempre duvidei de muitas opções daquele partido, de tanta maquiavelice naquele horizonte, hoje rendo aos veteranos à minha mais sentida homenagem. Senti a autoridade da união e amizade que entre eles reina. Era preciso se envelhecerem para se ouvirem. Era preciso se sentirem desrespeitados e marginalizados, para se defenderem um ao outro. Tantas humilhações e desrespeitos anteviram este congresso, que temi pela vida do meu pai e de alguns camaradas, quando alguém da família, um sem carácter, disse à minha irmã Ninfa: Manel gora, si fassi brinkadera, militares na mata êlis, el ku Manecas, Adiatu toma partido. Credo, nta i tchiga kila? Essa pessoa cresceu na casa do meu pai. Garandis kuma(cobra ku bu dá di kumé ku ta murdiu)! Ainda temos quem ousa segurar na mão do meu pai e ir sacudindo ou abanando como se de leque se tratasse, aquando das discussões sobre os delegados de Oio e Bafatá. Essa cobardia deveu-se à certeza de ele não estar a ver e da idade destituir-lhe de toda a força. Muitas humilhações e desrespeito aos mais velhos. Uns se apegaram aos ganhos e promessas monetárias, quiça até de chefias e regalias, onde todos querem puder/poder; eles lutaram pelo melhor, por um legado seguro e maduro. Perderam pela separação de poderes e venceram na estratégia da coligação, com dignidade, coerência e a sabedoria que o tempo lhes concedeu...Ouvi os discursos do meu Comandante Manuel Saturnino Domingos Costa, chorei de emoção. Não podia ser mais reconciliador e mais coerente, nunca. Sei e entendo porque os camaradas o apoiam e lhe respeitam. Definitivamente, tenho muito orgulho dos camaradas e do meu amado pai.

Eleito pelo Engenheiro Domingos Simões Pereira: Presidente de Honra do PAIGC, agradeço ao Senhor e em nome de Jesus, toda essa graça. Haja união e reconciliação das partes, são necessários todos os militantes para reerguer o partido de Cabral. Chega de hostilidades e indisciplinas que ao longo de décadas tem-nos atolado. Parabéns à candidatura do Projecto da inclusão, parabéns ao Domingos simões Pereira, parabéns sobretudo aos veteranos. Tenho muito orgulho em vós, hoje mais do que nunca. 
 Glória pa kombatentis! PAIGC kusta sangui ku suor di kombatenti, nõ tem ku honral! Cresci ouvindo!

Assinatura: Saliatu Da Costa

Nota GP: Sali, pelas fricções do actual momento, podes neste estar a pensar que publicamos este texto para tirar algum proveito. Do fundo do coração queremos que acredites que, o que nos motivou é simplesmente a sua pertinência. Não tem nada de aproveitamento político da actualidade. Acredite, Prima Kampuny!