quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"I kuma gora" ?


Por: Santos Fernandes

Tem sido rápida a evolução da “língua crioula” da Guiné-Bissau, o elemento identitário da sociedade guineense. Contudo, atrás dessa evolução, confrontamo-nos, dia após dia, com inúmeras situações “negativas” que têm marcado a evolução da nossa tão querida e “maltratada” língua materna - crioula...
Deambular pelas artérias da cidade capital – Bissau. Nos meios de transportes urbanos, como sejam: Táxis, Toka-Tokas e Kandongas, faz de nós instrumentos de uma evolução linguística, sem precedentes.
Para os linguistas, a língua ou dialecto evolui-se com o passar do tempo, através do conto, da oralidade e da escrita que passa de geração para geração, ou seja, é hereditário.
Até porque, trata-se de um instrumento de comunicação utilizado pelos seres humanos. Tal é, por conseguinte, a complexidade que lhe é característico.
Ora, pois, deparamo-nos com as influências da mundialização de vária ordem, “gírias” oriundas de Manhattan em New York, de repente vira moda nos subúrbios de Bafatá ou Bissau.
Expressões próprias da sociedade de influência francófona que, em pouco mais de duas décadas, “mudam” o vocabulário do quotidiano Bissau guineense, a título explicativo, a expressão “com licença”, muito clássica do português, francês ou inglês, passou a influenciar o crioulo guineense praticado nos nossos espaços sociais, por exemplo, nas “Toka-Tokas” e “Kandongas”, transformando a referida expressão numa espécie de “Partin n´passa” …
Para um forasteiro que acaba de chegar à terra de Amílcar Lopes Cabral, soa e ecoa uma linguagem normal e corrente. Mas, para aqueles que gostam de preservar a identidade cultural guineense, pelo menos, no que de melhor se deve valorizar, a nossa língua materna – crioula, transformou-se muito, a semelhança das outras franjas da sociedade.
Tão rápida e “perigosa” tem sido essa transformação, no campo da língua, que anos ssusta, sem exagero.
Pena que os nossos problemas quotidianos de “buska bianda ku kussassinhus pa mininus” não nos permitam reflectir sobre essas “pequenas” coisas relacionadas com o bom uso da nossa língua crioula.
Creio que, um dia, esses problemas transformar-se-ão em “assuntos” grandes passarão a merecer, também, debate no campo educativo.
Todavia, não quero deixar de acreditar que a sociedade muda e evolui. Mas, não deixa de ser verdade que a “evolução” deve ser pela positiva, permitindo-nos preservar a essência das coisas.
“I kuma gora”? - Zé Manel (músico) surpreendeu-se...
Bissau, Julho de 2015
Santos Fernandes