terça-feira, 1 de novembro de 2016

Problema de Consciência

Eu só queria dizer algo que acho que todos já sabem, que a liberdade de consciência e de expressão é um direito universal importante e que da mesma forma como fomos votar “cada kin ku si consciência” assim também temos o direito de protestar ou não “cada kin ku si consciência”. Sou contra fazer da revolução, protestação, revindicação ou seja lá o que for um dever, pelas mesmas razões que sou contra a criminalização do aborto, ou seja sou a favor do livre arbítrio, da liberdade de escolha e mais profundamente da liberdade de objectar/não concordar ou de se abster.
Abster-se de emitir uma opinião sobre a nossa “crise politica”, recusar a defender qualquer que seja campo, e sobretudo opor-se a sua “primaverização” (nem sei se a palavra existe), são atitudes decorrentes dessa tal liberdade de consciência. E eu respeitos todos aqueles Guineenses que decidiram adoptar essa atitude, assim como respeito aqueles que estão de um lado ou de outro da contenda. A grande questão é: Será que esses se respeitam? Será que respeitam os que decidiram se “abster de opinar” ou os que opinam sem tomada de posições?
Não vou responder, porque não tenho resposta para tal questão. Mas vou dizer o que penso, aí se vou!

Eu penso que estamos a assistir a uma aula de como ter uma democracia com maus políticos (péssimos mesmo), como ter titulares de cargos políticos e representantes de instituições públicas sem a bagagem necessária. É uma grande aula, muito concisa e nós em vez de prestarmos atenção e aprendermos para não repetirmos os mesmos erros, andamos a fazer barulho a volta.
Eu vejo pessoas indignadas com a actual situação como se ter um governo formado por este ou aquele fosse resolver os nossos problemas. Alguém se lembra da última vez em que vivemos em estabilidade democrática?
Alguém se lembra da última vez que estivemos bem como estado/nação? Então porquê que em vez de se concentrarem no importante que é tentar perceber como é que nos livramos desta geração de políticos falhados, está todo o mundo preocupado a ver quem vai ganhar ou quem vai ser primeiro-ministro? Talvez seja mais fácil pensar no curto prazo e procurar soluções que resolvam os problemas de imediato, mas essas soluções não vão por médicos, medicamentos e serviços de saúde de qualidade nos hospitais. Esses arranjos políticos, não vão por professores e ensino de qualidade nas nossas escolas, não nos vão por comida na mesa, muito menos dignidade nos rostos.

Pensem irmãos, isto que estamos a assistir é uma lição indesejada do qual só temos que tirar as ilações que nos faltam para despertamos da nossa paralisia. Não importa quem for nomeado primeiro-ministro, isso nada mudara no nosso dia-a-dia, da mesma forma que as sucessivas eleições que temos realizado não o conseguiram até agora. E digo mais, nenhum governo que seja nomeado neste contexto de bagunça conseguirá ser eficiente o suficiente para nos confortar, só a ideia de ter todo mundo no governo para agradar a gregos e troianos já é muito macabra para um país como o nosso. Porque neste caso as pessoas lá vão para “preencher cota” e não porque tem as competências necessárias e a ética que se requer para o exercício de um cargo público.
Nenhuma acordo que seja apresentado agora como solução poderá ser sustentável a longo prazo, então porquê continuar a choramingar por um primeiro-ministro que por mais bem-intencionado e competente que seja terá as mãos atadas num governo cheio de inimigos? Porque continuar a chorar por um governo dos mesmo que nos têm governado sem resultado? A crise revelou muito do “qualidade” dos nossos políticos e dirigentes e penso que hoje temos evidências suficientes para começarmos um “revolução” mais elaborada do que um protesto de fotos nos Facebook (sem querer desrespeitar a iniciativa), mais efectiva do que passeatas e marchas, uma “revolução” que nos permita primeiro admitir que estamos pior do que aparentamos, que o problema somos nós, todos nós e que precisaremos de soluções a longo prazo que possam mudar a nossas vidas de forma positiva e durável.
A solução que sair desta crise não vai mudar positivamente as nossas vidas porque não é uma solução é um arranjo e fazendo fé nas pessoas que percebem de leis é um arranjo inconstitucional, não vai nos dar estabilidade política porque não vai resolver as desavenças, só as vai adiar (talvez até as próximas eleições), se o arranjo avançar tudo vai voltar a estar calmo, mas podre, como antes.
Deus queira que eu esteja errado!
Didier Samir Monteiro

Nota GP: No fundo somos contra este texto, mas aceitamos publicá-lo. Estão a convidar-nos para um conformismo disfarçado.