segunda-feira, 7 de novembro de 2016

DOMESTICAR A DEMOCRACIA


Passado 1/4 do século depois da introdução generalizada da democracia em África, o balanço parece um pouco confuso. Existem sinais evidentes de retrocessos. Instabilidade política generalizada; crescimento económico insuficiente para cobrir as demandas; desagregação das instituições da sociedade tradicional africana (família, casamento, comunidade), que eram pilares de estabilidade social, sem a sua substituição pelos mecanismos modernos de regulação do Estado social, que ainda não chegou ao nosso continente.
No plano económico, social e político, a democracia parece ter provado pouco aliciante. Aliás, existem sinais desencorajadores da caminhada democrática. Quer em África, quer na Ásia, os países que mais prosperam, ou são ditaduras, ou não são modelos de democracia. As excepções existentes são andorinhas que não fazem primaveras.
Se o regresso às ditaduras está fora de hipótese, um repensar do modelo democrático e económico "imposto" à África é urgente.
Um certo nível de conflitualidade política parece acomodar mal as nossas idiossincrasias; um modelo de governação e de legitimação do poder baseado apenas em competições eleitorais em curtos períodos de tempo para todos os órgãos, parece intensificar a instabilidade política, económica e social.
É preciso repensar e adaptar o modelo aos nossos valores e tradições de poder. A Ásia está a sair-se melhor no plano económico, porque foi má aluna do FMI e do BM; está politicamente mais estável, porque recebeu, com reservas, os ventos da queda do Muro de Berlim. Pelo contrário, a África e a América do Sul ainda não se rencontraram, porque, se calharam, quiseram ser mais papistas que o Papa na adopção do modelo democrático e na abertura económica.
Democracia, representação, constituições, direitos humanos, justiça, género, família, propriedade e liberdades diversas, são universais como conceitos, mas relativos em conteúdo, este, determinado pelas circunstâncias, valores e culturas de cada sociedade.
Portanto, é preciso domesticar. O pronto a vestir convém, mas só por sorte calha bem.

Arusha, Tanzânia, 06.11.2016.
Pedro Rosa Co