terça-feira, 25 de outubro de 2016

Um mar de dificuldades: Obrigado Gorky Medina

Depois de três semanas após o regresso, uma ida a Bolama e a Bafatá; uma ida ao Bairro Militar e Antula, várias idas à Madina e ao Bairro de ajuda, pude notar uma incrível paralisação/bloqueio, de toda a cidade de Bissau, devido a circulação fastidiosa entre Praça e o resto de bairros periféricos.

Viver em Bissau está-se a tornar num calvário: a pobreza sempre fez parte das nossas vidas e de todos os bairros da capital do nosso país e de todo o interior do país, isso não é segredo para ninguém, mas hoje, as coisas estão ainda mais difíceis e começa a ser uma batalha campal, viver e circular-se pela cidade de Bissau.

Aquilo que era um fenômeno esporádico, os engarrafamentos, tornou-se o pão-nosso de cada dia, e para os moradores de todos os bairros de Bissau, deslocar-se de manhã, à tarde e durante a parte inicial da noite, está um verdadeiro calvário. Mas cuidado, o calvário não é só devido transito infernal entre as artérias – mãe-de água e chapa de Bissau -, não é só isso, é também devido as dificuldades de acesso para todos os bairros de Bissau, devido as crateras nas estradas e que pioram ainda mais na época da chuva.

É duro ser guineense e cada vez mais é insuportável a situação a que as pessoas estão voltadas. Aguentar tudo isso requer uma resiliência acima de média nos comuns dos mortais. Isso é mais do que ser experts a viver na incerteza, é acima de tudo, aceitar ser maltratado pelas pessoas que decidimos mandatar que cuidem dos nossos assuntos.
O país debate-se em questões quizilentas que em nada beneficia o povo há mais de duas décadas – sim meus amigos, isto não começou há um ano como se afirma, isto aqui são efeitos de um movimento falhado começado algures na década 80 – enquanto isso as condições de vida dos guineenses têm piorado. Aonde isto vai parar?

Será que ninguém olha ao lado para ver como aos que lhe rodeiam lhes falta tudo e mais alguma coisa? Como é possível deixar a cidade crescer exponencialmente e ninguém se preocupou com questões urbanísticas e de saúde pública que efetivamente não deveriam deixar de lado? Como é possível deixarmos em pleno sec. XXI, criar bairros periféricos na cidade, completamente bloqueados e sem qualquer possibilidade de uma vida sã? E a questão do saneamento nos bairros? A saúde pública com charcos e rios que proliferam nos bairros a criar mosquitos e outros insectos nocivos para a saúde humana? Como é possível não existir um centro de saúde nos bairros como Bairro Militar, Madina, e Cuntum Quelelé que são muito populosos? Afinal existe uma estratégia para o país ou andam todos a fazer Bluf? Porque razão aumenta a população quase o triplo de 1998 e não aumentou o número de escolas públicas nos bairros?


Meus senhores, este artigo não tem como objetivo criticar este ou aquele governo, trata-se de um percurso negativo do país. Cada vez mais tenho medo de ter de ser eu a falar das coisas. Também não recuso uma vida fantástica, mas no meu caso quero-o, resultado do meu suor e sem pisar nas pessoas, por isso continuo preocupado com os mais desfavorecidos. Os problemas de que falei, afecta ainda mais os mais pobres, embora hoje, a questão do trânsito toca a todos e está insuportável para todos. Pode-se mandar os filhos estudar fora ou em escolas privadas de renome, mandar se tratar fora quando têm problemas de saúde, mas não se pode fugir das estradas uma vez em Bissau, isso é incontornável.

Ter um Estado falido e sem meios – independentemente da razão de falta desses meios – acontece a muitos. Ter um estado dispendioso e ainda por cima que gasta mal os seus parcos recursos, é um problema, pois que, significa que a forma como se gasta não é mais adequada e as prioridades estão trocadas. Pior ainda, é viver num país onde o Estado pode pouco, e para além de nada fazer para a maioria da população, é ser o próprio Estado quem empata a vida das pessoas. Isso é horrível e hoje é um sentimento transversal nos guineenses.
A nossa comunidade política tem de compreender que chegou a hora em que já não têm mais saída, o povo está asfixiado e isto não pode continuar assim. Todos os meios de sobrevivência experimentado pelos guineenses estão a falir. 

GMM, 24.10.2016

Tirado abusivamente do facebook de Gorky Medina